Em recente viagem me deparei com a Revista UP editada pela Tap Portugal. Lendo ao acaso me deparei com um texto muito interessante de Sandro Mendonça sobre o futuro da leitura. Transcrevo a coluna em nosso blog para que você, nosso leitor, pense a respeito e tire suas conclusões. Boa leitura!
O Futuro da Leitura
Temos assistido a uma reinvenção do corpo humano como meio comunicacional.
A revista que o leitor tem nas mãos é um “dispositivo”, ou “device”, como se diz agora. A página para onde o leitor está a olhar é um “ecrã”, um “interface”, afinal de contas. Nestes tempos de densa ecosfera digital em expansão estamos a reconsiderar o que pensamos sobre tecnologia e a sua relação com o mundo das palavras.
Objetos como livros, revistas ou jornais são objetos analógicos. Estes são casos particulares de suportes tangíveis e tradicionais que dão apoio a essa atividade a que chamamos leitura. Pois, por acaso um livro em papel não se desliga quando não está ligado à tomada. Não está dependente de eletricidade. Estas são as vantagens de termos acesso a conteúdos sob a forma de um livro clássico. Contudo, para ser produzido um livro necessitou que muita tecnologia fosse canalizada para o seu processo de fabrico. Um livro impresso tem, portanto, energia embutida.
O papel é uma janela onde estão estampados os signos que transmitem a informação. Uma folha impressa é uma superfície por onde os nossos olhos deslizam e na qual os nossos dedos tocam. As palavras estampadas nessa fina fatia de matéria são estáticas e a sua posição na página inamovível. Contudo, talvez por estarem inexoravelmente fixas e presas em páginas, umas a seguir às outras numa ordem pré-determinada, talvez por isso é que as palavras tiveram até hoje tão grande capacidade de libertar a mente em direções de imagens e significados tantas vezes não imaginadas pelos próprios autores.
O objeto publicado é um mediador entre o autor e o leitor. Mas neste papel “o livro provavelmente transformou-nos mais do que qualquer outra ferramenta”. Quem o diz é Jeff Bezos, o empresário norte-americano da Amazon. A Amazon começou por ser uma livraria eletrônica de livros em papel e agora vê a suas vendas de livros eletrônicos a explodir. Curiosamente também, a Amazon vende esses livros preferencialmente para o Kindle. Estas palavras são proferidas em Out of Print, documentário acabado de estrear, narrado por Meryl Streep e realizado por Vivienne Roumani (uma antiga bibliotecária).
Na era da produção digital os livros não são tanto escritos à mão: são digitados para dentro de ecrãs. Na era da reprodução digital os livros não são tanto fabricados: são replicados (duplicados por “copy & paste”, “download”, etc.) e aparecem à tona de ecrãs (computadores, smartphones, tablets, etc.) Nesta mudança mudam o modo de escrita e os modelos de leitura. Mas também mudam as atividades “em volta”, como sejam a indústria livreira, o negócio das livrarias, as funções das bibliotecas, etc.
Numa carta a Clarice Lispector, o poeta Drummond de Andrade dizia em 1975: “Ler ou reler você é sempre uma operação feliz: descobrem-se coisas, aprimora-se o conhecimento das descobertas.” Esta carta está amarelecida pelo tempo, mas podemos lê-la todos onde quer que estejamos , pois está disponível à distância de um clique (aqui:bit,ly/16BYSTQ). Parafraseando o grande poeta português Mário Cesariny, a nova leitura não cavalga, “navega”.
Revista UP nº 67, maio/2013 – Tap Portugal
Por Sandro Mendonça – Economista do ISCTE-IUL em Lisboa e Fellow do King’s College em Londres.



